SPORTING: ESTRATÉGIA DE RISCO MÍNIMO
São trinta milhões de euros por um jogador – Zalazar – que só verdadeiramente explodiu nesta temporada. Com duas certezas: rendimento imediato de um elemento adaptado ao contexto; e capacidade do uruguaio para atuar em todos os corredores da zona de ataque.
Se é para se gastar muito dinheiro, que seja num produto final que não necessita nem de contextos nem de adaptações. Chegar, vir e render. Isto porque a capitulação do Sporting nesta temporada – sobretudo neste último terço – teve como principal causa a falta de rendimento dos reforços, sobretudo porque uma boa tarde deles não proveio da esfera da liga nacional – Kochorashvilli, Luís Fabiano, Faye ou Vagiannidis.
É claro que há o argumento dos rivais – o FC Porto também pescou fora de portas – e, partindo-se da especulação, o problema pode ser interno. Do clube. Que não realizou um trabalho de análise do perfil psicológico dos jogadores, sendo que cada caso é um caso e, quando se contrata, também se realiza uma espécie de salto no desconhecido ou mergulho no risco. Sim, porque partindo dos dois clubes, nem o FC Porto acertará sempre nem o Sporting fará o inverso. Agora, há quem tenha mais sorte que outros. Porque planeia e não escamoteia quaisquer detalhes.
Mas a grande questão do negócio Zalazar é mesmo o seu anexo: Diogo Travassos. É que o jovem português tanto pode atuar como lateral ou como ala, apresentando um rendimento constante e um potencial muito interessante, sobretudo ao nível da capitalização das suas valências de velocidade, técnica e decisão. Ora, envolver um jovem jogador que vai custar ao Braga 5,5 milhões de euros mas que pode, até a curto-prazo, duplicar ou triplicar o seu valor de mercado, é um negócio discutível para os lados do leão. E muito bem sacado por António Salvador que, malgrado um quarto lugar que não correspondeu às expetativas, capta um elemento de elevado potencial quer de mercado quer de rendimento imediato – época no Moreirense foi reveladora e sem margem de dúvidas acerca da qualidade do jogador.
Sobre Zalazar, se um jogador que custa tal pipa de massa só poderá vir para jogar, interessa perceber que, para Zalazar entrar, alguém terá de sair. Da montra leonina, que para infortúnio verde-e-branco só se define na tal primeira linha de ouro (mas esgotável), o jogador que mais se aproxima em termos de caraterísticas é Pedro Gonçalves. Mas por aqui há um problema: é que uma eventual “troca por troca” apenas remenda um problema que é bem mais amplo, e que se vai agudizar com as previsíveis saídas de Hjulmand, Morita e Quenda (este último uma saída certa).
Porque o Sporting tem um problema de dupla face: em primeiro lugar tem de se proteger do alvoroço do mercado, que afetará de forma vincada o clube sobretudo em ano de mundial; depois, o leão precisa de se fortalecer em termos de segundas linhas protegendo as primeiras, numa equação difícil de resolver numa só época. Que pode dar asneira. E quem faz asneiras fica sem pontos, sobretudo no período inicial da corrida.
Isto não colocando em cima da mesa as rotinas do meio-campo, que sairão fortemente abaladas após as previsíveis saídas de Hjulmand e de Morita. Daí a margem de erro ser tão reduzida, e a tal captação de jogadores provenientes de outras esferas ser um cenário a evitar. Ou a desencadear, apenas, em situação de relativo conforto, mediante análise de um curriculum que comprove eficácia máxima em cenário de rápida mudança de contexto.
Se a qualificação para a Liga dos Campeões poderá dar um jeito tremendo, sobretudo ao nível do conforto e aumento da margem de risco, há um terceiro fator que deve ser analisado. E que coloca os leões atrás dos dragões: é que, bem ou mal, o FC Porto vai atacar o mercado com a perspetiva de melhorar os seus quadros e de levar a equipa um novo estágio de desenvolvimento. Já o Sporting envereda mais por uma estratégia de SOS – proteger o que já tem e resolvendo a lacuna que vem do passado. E sem se abordar a temática de um Benfica que, na eventual Liga Europa, terá de vender para subsistir ao mesmo tempo que se tenta reerguer.
Por aí, leitura fácil do contexto: o título dos dragões é, também por ele, um passaporte de tranquilidade para as épocas vindouras. Porque, se os rivais enfrentam problemas devido à falta de planeamento ou de visão, tudo demorará tempo a ser resolvido. A menos que o mundial dê uma cambalhota na ordem natural das coisas. A tal competição onde Froholdt não marcará presença: e que jeito deu a eliminação da Dinamarca!
nunes.gil@gmail.com
Gil Nunes @gilmoreiranunes

