SPORTING: NAQUELE DIA A SOFREGUIDÃO PAROU
Mais ou menos sôfregos, certo é que os leões conseguiram uma vitória tranquila em Moreira de Cónegos. O tónico que era necessário tendo em linha de conta que as recentes vitórias in extremis representavam um passaporte para o deslize.
E, nestas alturas, deslize é igual a perda do comboio do título. O tal comboio cujo bilhete foi adquirido no Dragão no último minuto. Nunca se saberá se as palavras de Vasco Botelho da Costa, técnico do Moreirense, se ajustam ou não e se o Sporting é a equipa mais forte da liga. Sempre relativo: até porque o FC Porto é uma espécie de fortaleza ambulante e, nestas coisas, a análise pode ser feita do ponto de vista do copo mais ou menos cheio: ou o mais forte é aquele a quem é mais improvável marcarmos um golo – dragões; ou então o mais forte é aquele que dispõe de ferramentas mais fortes em termos do ataque em posse e, com naturalidade, consegue desmantelar os adversários tidos como mais débeis – Sporting.
Seja como for, tal pouco interessa até porque, no fundo, é quase como se dizer que Ronaldo é melhor que Messi ou vice-versa. Depende do ponto de vista. Se em termos pontuais tal não é assim tão relativo – o FC Porto venceu em Alvalade e conquistou vantagem no eventual confronto direto – na prática tudo se esbate do ponto de vista do observador. E tal pouco interessa.
Para o Sporting há um ponto assente: quando o leão está apetrechado de todas as suas peças, sobretudo as da dianteira, consegue apresentar uma mobilidade considerável na frente de ataque e, com isso, tornar o jogo muito difícil de contrariar por parte do adversário. Até porque esteve em grande na substituição de Gyokeres: Luis Suarez acrescenta, inclusive, um maior pendor associativo e torna a equipa mais flexível em termos de soluções imediatas.
Mas, em Moreira de Cónegos, sobressaiu a reação à perda e uma aposta firme no jogo pelos corredores, sobretudo pelo lado esquerdo. Se o desenvolvimento pleno de Luís Guilherme ainda não está conseguido – veja-se a derivação de um mais rotinado Trincão para os flancos em diferentes jogos – pelo menos a integração dá sinais de um desenvolvimento harmonioso que o tornará numa efetiva mais-valia num futuro próximo. E o Sporting atacou, e ataca, muito pelo esquerdo porque o seu plantel contempla um conjunto de elementos – Maxi Araújo à cabeça – com capacidade para ocupar os espaços, conquistar superioridade em termos de jogo em apoio e, com isso, definirem-se focos de alimentação permanente das zonas mais adiantadas.
O que contrasta com um flanco direito que, malgrado as melhorias registadas esta época por Fresneda e a presença de Vagiannidis, ainda não tem o poder destrutivo do corredor oposto. O que entra no campo da discussão: se teoricamente tal poderia representar um desequilíbrio evidente, na prática torna-se uma vantagem à custa da sagaz interpretação de Rui Borges: se temos um flanco esquerdo forte, então vamos insistir até que o adversário não tenha outro remédio que não seja ceder. E existe sempre a possibilidade de se efetuar uma abrupta variação de flanco e colocar Geny Catamo em situação de um contra um: tal como aconteceu no lance do fantástico golo apontado pelo moçambicano.
Se o Sporting que abraça a reta final da liga tem a condicionante da sobrecarga dos oitavos de final da Liga dos Campeões, o leão tem também o travo amargo de não ter tido um desempenho mais forte nos ditos jogos grandes. Ou de não ter respondido em pleno ao primeiro embate frente ao FC Porto que, para já, é praticamente o jogo do título. Seja como for, o Sporting de Rui Borges pode ainda ser tão avassalador como o de Amorim, mas o hiato não é assim tão proeminente. Pelo menos, nesta época, o técnico conseguiu afirmar-se como treinador de equipa grande e definir uma equipa mais à sua imagem. Mesmo que a filosofia de final que o FC Porto tem apresentado possa condicionar o tricampeonato. Mas a base perdurará: o Sporting de Borges não será uma réplica do leão do seu antecessor. Afirmação concluída com sucesso.
nunes.gil@gmail.com
@gilmoreiranunes

